BIOLOGIA: Desbravando a Ilha Rata, por Leonardo Paiva


Para quem tem um olhar mais atento, o arquipélago de Fernando de Noronha não se resume a praias e pores do sol somente, existem muitos outros detalhes da natureza que fazem os olhos brilharem.

Como funcionário voluntário do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e amante da ecologia e da parte de sucessão ecológica, reparei muito nos aspectos naturais da ilha. Observava o comportamento da vegetação, tanto do Parque Nacional Marinho (PARNAMAR), quanto da área urbana da ilha (uma Área de Proteção Ambiental – APA), em que dava pra imaginar o processo que aconteceu desde as erupções vulcânicas que originaram o arquipélago, há cerca de 12 milhões de anos, quando os primeiros líquens e musgos começaram a colonizar o local, até termos a vegetação atual. Tudo isso dá pra ser observado em qualquer lugar, mas as ilhas são ambientes únicos e especiais nesse sentido.


Pequenas ervas (principalmente as crassuláceas - ou suculentas - muito comuns próximas das praias) crescendo em meio a rochas denunciam um processo antigo de formação de solo, mas a ilha também dá exemplos de plantas que não respeitaram essa regra: algumas árvores, como na praia do Sancho e no Mirante dos Golfinhos, simplesmente crescem enormes entre as rochas e suas raízes vão se prendendo a pedras grandes. Elas quebraram todas as etapas que os livros didáticos contam e fazem ali o que chamamos de intemperismo biológico, quebrando edras maiores em menores para, daqui a muito tempo, permitir a formação de mais solo. A chuva, o sol e o vento também ajudam nesse processo. Isso é muito visível em algumas praias, em que sempre há o risco de alguma pedra ou sedimento sair rolando barranco abaixo.


Arbustos crescendo no meio das pedras no mirante da baía dos Porcos, ponto clássico de foto com o morro dos dois irmãos. E por que acho a ilha Rata tão incrível? Ela é a maior ilha secundária do arquipélago, tem aproximadamente 4,8km², tamanho suficiente pra abrigar uma vegetação de maior porte (até um pouco parecida com a da ilha principal), mais recursos e, consequentemente, maior complexidade biológica. Por ser parte do PARNAMAR, consiste num ambiente mais preservado, por isso achei ali a oportunidade perfeita para fazer suposições de sucessão ecológica e outras demandas ambientais relevantes. Fica a cerca de 2km da ilha principal, de forma que é necessário barco para se chegar lá. Como falei acima, faz parte do PARNAMAR, então sua visitação é restrita a pesquisadores ou integrantes do ICMBio e a forma mais provável de ser vista de perto por um turista é pelo passeio de barco ao redor do arquipélago.

Tive a oportunidade de realizar uma visita técnica na ilha com alguns amigos e segue uma foto da nossa chegada (apesar do traje de mergulho, só o finalzinho do trajeto que foi feito na água. Um mineiro como eu não teria nem chance de fazer isso mergulhando):


Logo atrás dá pra ver as ilhas do meio, Sela Gineta e, um pouco à direita, o Morro do Pico bem ao fundo. Apesar de incrível, há problemas evidentes no local: além de um pouco de lixo, vi uma quantidade grande de espécies exóticas e invasoras, em parte pela proximidade com a ilha principal, o que deixa fácil a disseminação de sementes leves pelo vento e de outras por aves.

Outro motivo pode ser as ocasionais visitas realizadas na ilha e o passado habitado dela por moradores do arquipélago. O nome “Rata” se deve justamente à presença em massa de uma espécie altamente invasora: os ratos. Neste dia, fizemos uma caminhada por lá e encontramos marcas da presença humana: ruínas, fossas, casas ainda inteiras e o famoso farol que dá pra ser observado mesmo da ilha principal. São vestígios que contam um pouco da história do arquipélago e fazem da visitação ainda mais interessante. Curiosamente, não há quase nada sobre a ilha Rata na internet a não ser algumas reportagens.


A presença de ruínas na ilha mostra que já foi habitada. Na foto da direita, a casa do famoso e lendário Júlio Grande, com o morro do pico ao fundo. Por ser uma região de pouquíssimo contato com o ser humano, vemos algumas diferenças na natureza: os caranguejos são bem maiores que os da ilha principal, provavelmente pelo fato de os grandes serem mais predados ou capturados e ficarem mais raros lá. Apesar de estarem presentes, a quantidade de espécies exóticas e invasoras é bem menor e um dos motivos pra isso é a menor abertura de clareiras nas matas, que diminuem a chance de estabelecimento de espécies oportunistas, especialmente a Leucena (leucaena leucocephala), que é um grave problema ambiental hoje em Fernando de Noronha.

É importante lembrar que o arquipélago tem um clima tropical, quente e úmido o ano inteiro, com temperaturas estáveis, quase sempre entre 24 e 30°C. Para fazer esse e outros passeios, a dica é usar, além do protetor solar e de boné/chapéu, blusas UV. As chuvas ocorrem com frequência entre fevereiro e julho e se tornam muito esporádicas e isoladas nos outros meses.


A boa notícia é que são chuvas em geral leves, quase sempre sem raios (o que é ótimo para praia), nem ventania ou granizo. São mais de 2900 horas de sol por ano, um valor alto que deixa a expressão “paraíso tropical” ainda mais verdadeira.

Leonardo Paiva Correa
Estudante do último período de Ciências Biológicas pela UFMG.
Instagram: @paiva_leoo

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