Uma carta a Fernando de Noronha



Conhecer Fernando de Noronha já era uma vontade.  O lugar do Brasil que eu mais queria conhecer, afinal de contas, é o paraíso marinho do Brasil, todo mundo que fez biologia marinha, mergulha ou tem uma ligação forte com o mar, deseja conhecer, mergulhar e sentir essa energia vinda do oceano de um lugar único e mágico nesse quesito. Noronha me mostrou muito mais que paisagens lindas e um fundo do mar surpreendente. Posso dizer que eu conheci Fernando de Noronha profundamente, fui além do superficial, além das paisagens de tirar o fôlego, além dos incríveis mergulhos...  E isso é um privilégio. 

É como uma grande amiga me disse, a maioria das pessoas fica muito na superfície e o que faz a diferença e trás autoconhecimento é aprofundar a experiência, os papos, as relações e os momentos. Noronha superficial são apenas fotos e roteiros turísticos tradicionais, viver em Noronha é comprar essa briga de querer que o tal paraíso não seja ilusão para alguns, mas que caminhe para ser modelo em tudo e para todos, pois tem potencial. É saber que existem problemas de saúde, educação e que, apesar de não ter violência urbana, tem violências domésticas diversas, e que isso pode não te atingir diretamente, mas lutar para diminuir essa realidade é seu dever também, pois você faz parte do todo. É participar do conselho regional e entender o processo de mudança que a ilha se encontra, caminhando para urbanização, abrindo pousadas luxuosas e elitizando ainda mais o turismo, é se incomodar com isso, pois ali é uma unidade de conservação, e essa direção é contrária à conservação e preservação do meio ambiente.  É entender que os moradores deveriam ser os valorizados como pequenos empresários, e não “milionários” de fora... 

Essa viagem não foi a passeio, ela foi a trabalho, ela foi fazendo o que amo fazer, vivendo a biologia em muitas áreas. Foi como moradora temporária, foi de uma maneira que pude ver que a ilha também tem seus problemas e, mesmo que os problemas de Noronha pareçam menores que os do continente, não deveríamos deixar de nos preocupar e lutar, para que não vire problemas de metrópoles, para que seja um exemplo a ser seguido um dia.

Fiz parte de muitas pequenas conquistas, iniciativas e atitudes aos quais eu me orgulhei de mim. Fui a pessoa que eu sempre achei que seria e essa satisfação de ser é tão inescapável. O mais bonito é que não fiz nada sozinha, fui uma dupla, fui um grupo, tinham pessoas de bom coração ao meu redor o tempo todo. Fiz amigos em meses que, devido a intensidade desse lugar, de dormir, acordar e trabalhar com eles parece que conheço há anos, tamanha intimidade, carinho e consideração. A união é a palavra aqui. Fernando de Noronha não teria sido tudo que foi para mim sem essas pessoas, e mesmo as pessoas com passagem mais rápidas por esse caminho fizeram a diferença.
A pessoa que chegou, foi embora diferente, sem esquecer que agora sou um tanto de gente dentro de mim, mais um tanto de gente, mais um tanto de amor. Aprendi com eles na rotina que cuidado é doação, e como fomos família, quebrando tabus sociais, dormimos de mãos dadas, demos beijos na testa de boa noite, fizemos tantas comidas uns para os outros, cuidamos do machucado ou de alguém que ficasse doente, saímos para socorrer um ao outro em qualquer chuva e qualquer hora, socorros físicos ou emocionais, dormimos todos encolhidos em um mezanino só porque queríamos estar juntos na minha última noite em Noronha, emprestamos roupas, recolhemos a roupa do outro no varal, fizemos surpresas de aniversário, fizemos surpresas para deixar feliz, conversamos tanto, pagamos a conta quando o outro estava sem grana, dividimos ideais, discordamos de assuntos e conversamos milhares de vezes, nos respeitamos sempre.

E sabemos que, mesmo longe, construímos bases sólidas e espero que a distância física seja suprida pelas visitas em alguns momentos, como uma família grande onde cada um mora em um canto do Brasil.

Noronha tem essa coisa de deixar em dúvida entre querer ir e ficar. Ir é necessário pois preciso voar, buscar o novo e o conhecimento faz parte de mim, tenho certeza que vou levar essa ilha e todas as pessoas que criei laços, não só no coração, como nos atos e no olhar.

Já sinto falta de ir para o trabalho de bicicleta barulhenta, de todo lugar ser perto, sair sem me preocupar com violência, ter a praia como quintal, ter contato com a natureza em qualquer lugar que eu esteja. Já sinto falta de ver o pôr do sol todo dia de um lugar diferente reunida com os amigos, de dormir em um quarto com duas garotas incríveis, de compartilhar momentos com amigos que são irmãos de tamanha intimidade, de dizer bom dia para todos que encontro na rua, de em cada esquina encontrar um conhecido e bater um papo, de passar de bicicleta e escutar alguém gritar: “galega” ou “ruiva”. Já sinto falta de convocar reunião para resolver problemas, de sonhar em deixar algo tão grande para Noronha assim como Noronha deixou para mim! Vou sentir saudade de todo dia aprender algo novo. Já sinto falta de me doar inteiramente à biologia, a sociedade e de me sentir reconhecida. Já sinto saudade de conhecer gente nova sempre, de beber água de coco direto do coqueiro, de realizar colheitas... De dar todo dia vários abraços, andar escalando pedras, pegar carona, tomar banho nas piscinas naturais, luas cheias lindas, praia à noite, interagir com animais marinhos, festas de despedidas e boas vindas, ter medo de tubarão e sempre encontra-los ao mergulhar...  Cantar Dorival.

Talvez eu já até sinta falta de falar mal da água da cacimba, de fazer comida quando não estou com vontade, mas tudo de bom que Noronha e vocês me ensinaram eu não vou deixar de aplicar pelo meio. Não deixe o meio te mudar se não for para melhor! Vou trazer essa energia e perpetuar. Descobri mais um dos meus lares no mundo, eu não poderia ter isso a Noronha em uma passagem menor, como viajante.

Uma dose de gratidão com uma dose de revolta, o equilíbrio para mudar o mundo positivamente e sem se destruir. Não acredito em menos que isso.

Jéssika Santana.

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